Amanhã é páscoa.
E um dia como a páscoa me remete boas lembranças da minha infância: acordar de manhã cedinho, me encher de casacos e correr casa afora procurando nos lugares mais imagináveis e incabíveis a minha cestinha de páscoa. Era um ritual delicioso de todo segundo domingo de abril, e tanto me marcou que consigo sentir até o cheiro da tinta das casquinhas pintadas numa bagunça de cores mescladas e tons pastéis.
Adorava a idéia do coelhinho da páscoa lembrar de todas as criancinhas e ter uma paciência danada para esconder cada cestinha em um lugar muito criativo. Já cheguei a achar a minha cesta dentro de uma máquina de lavar roupas, em cima de uma árvore, e até, num armário abandonado dentro de um rancho velho atrás da casa do meu avô, coberto por tiras de papéis coloridos. Era uma tarefa árdua, mas nunca desistíamos, e quem encontrasse a sua cesta primeiro, ajudava o outro a procurar.
Ano após ano, ainda me recordo da maioria das alegrias nas manhãs de páscoa. Mas em em tempos recentes, lamento muito pela páscoa ter que me recordar também, a partir de agora, coisas nem tão boas assim.
Fomos até aonde podíamos ir, com muito esforço, chegamos até aqui, com boas e más recordações um do outro, para guardar ou simplesmente deixar com que o tempo as arranque de nossas lembranças. Talvez possa arriscar a dizer que não vão nos acrescentar nada.
Jamais vou entender como alguém com quem sonhamos em ter ao nosso lado todos os dias, que te arranca sorrisos mesmo quando se está só, e que por fim, é o motivo pelo qual você acorda todos os dias feliz da vida, pode ser o mesmo alguém que te coloca no chão em segundos. Quase como do gelo ao fogo, do paraíso ao inferno.
Como o amor pode te tornar uma pessoa completamente mudada, madura e torturante ao mesmo tempo.
Eu não te julgo por você não me compreender. Por você não entender minha dor, minha mágoa e ressentimentos. Não te julgo por não ser paciente e não ter a sensibilidade de perceber quando preciso ser acolhida. Afinal, sem querer ser injusta, pouco sabe você sobre o que é querer ficar mesmo quando não se tem mais esperanças. Pouco sabe você, que mesmo assim, lá no fundinho, eu acreditava que seria diferente, que da próxima vez tudo mudaria. Mas esse sentimento era varrido e tirado a força de mim a cada vez que você me dilacerava novamente. Acabei me acostumando a esse ciclo, pois era o que sempre acontecia... Mesmo esperando o melhor, bem lá no fundinho, o pior sempre acontecia.
Se você tivesse parado, alguma vez, pra pensar no esforço que eu fazia pra querer ficar ao teu lado... No esforço que eu fazia pra querer acreditar numa palavra tua. Eu travava uma batalha contra eu mesma. Minha cabeça automaticamente me fazia lembrar de todas as vezes em que acreditei nas tuas mentiras e no que poderia me acontecer se estivesse caindo em mais uma delas.
Se tivesse parado para pensar que mesmo muito magoada, todos os meus "chega pra lá" e momentos de acesso de raiva, não passavam de insegurança.
Eu só queria me proteger.
Eu não te culpo por nada disso. Talvez, se fosse eu no seu lugar, teria pulado pra fora do barco muito antes. Talvez eu te entenda, talvez... Mas talvez, eu me sinta magoada por ter permanecido ao teu lado nos maiores momentos de dificuldade. Não exijo essa reciprocidade, não te obrigo a nada e nem mesmo sinto que está em falta comigo. Mas de alguma forma acho injusto. Lógico, ninguém é obrigado a nada, ainda mais quando não se está disposto a ficar, a tentar ajudar e compreender.
Nunca entendi como pode mudar tanto. Algum dia escutei que você amadureceu, mas não compreendo como amadurecer pode ser sinônimo de desprezo. Nunca entendi como alguém que dizia que me amava 3x ao dia, pode me dizer que me ama por obrigação antes de dormir só por receio de acordar e talvez eu não estar mais aqui. Nunca entendi como alguém quem me colocava em seus planos futuros e dizia emocionado que, nunca imaginaria a sua vida sem mim, pôde tão facilmente me retirar da sua vida futura. Ou simplesmente, parar de demonstrar. Será que foi porque eu me expus demais? Será? Será que foi porque eu reagi demasiadamente sofrido aos teus erros e você se encheu? De alguma forma, não tive culpa. Nunca havia passado por tudo isso antes. Nunca havia sofrido dessa maneira tão intensa por alguém.
Mas acho que isso responde às tuas perguntas em relação as minhas mudanças de comportamento, a minha frieza. A minha mudança foi consequência da tua.
Você pode me achar ridícula. E se algum dia chegar a ler esse texto, me acharia desprezível. Uma tolice sem tamanho, totalmente desnecessário. Pode até ficar com ódio por expor isso a um blog sem acesso. E eu me sentiria totalmente vulnerável, por mais que já tenha me aberto com você inúmeras vezes sem sucesso e retorno. Mas tudo bem, os dois estão cansados, não é? Tudo bem...
Com a pessoa que você se transformou hoje, acho pouco provável que corra atrás. Antigamente dizia "Você me conhece, sabe que sempre vou". Sinceramente? Me perdoa. Eu não te conheço faz tempo. A cada dia te desconhecia mais. Hoje já não acredito que vá se arrepender de nada, já não duvido que tenha virado a página. Mas não me culpe por isso... pois você se encarregou de criar essa imagem de você a partir do dia que começou a me machucar demais, que começou a mentir pra mim. Levei muito tempo me recusando a acreditar naquela pessoa que descobri e ainda levo tempo para me recuperar disso tudo.
Espero que algum dia entenda minha dor.
A essa altura, sei que no fundo sabe que não temos mais como dar certo. Mas espero jamais ter que ouvir isso da sua boca, pois ainda o amo. Muito.
Me desculpa.
07/04